Percorreu a estrada de terra batida a passos largos em direção à Rua da Santa Desatadora, 146. O sol alto brilhava com força e açoitava os ombros , o suor banhava suas têmporas e o cabelo por debaixo do chapéu, que lhe grudava na testa. Crianças muito sujas empinavam pipa aos berros, ele mascava um fio de trigo arrancado entre os muitos que compunham a paisagem (era trigo por todos os lados) e os homens que passavam a cavalo não tiravam o chapéu para quem quer que fosse – gente mal-educada, pensou. Algumas mulheres bem fornidas, feias e despenteadas às vezes apareciam nos portões para espiar suas crianças ou apenas para admirar os transeuntes e expor o charme que não possuíam, mas seus pés não se detiveram nem por um instante.
Parou em frente ao portão de ferro enferrujado que ladeava a casinha de tijolos. Uma casinha que ele imaginava, com muita ironia, poder ser derrubada com extrema facilidade pelo Lobo Mau. Porém, nem era para tanto – a maioria das casas se ia com a chuva. Ele olhava para o número da casa pregado muito frouxamente ao lado da campainha, e quase não se deu conta da criaturinha sentada nos degraus que davam para a porta de entrada. A menina devia ter uns sete anos, morena, com os cabelos muito pretos, compridos, embaraçados e sujos, como tudo que havia naquele local. Chupava uma manga enorme e amarela, cujo suco se espalhava não só pelos lábios, mas também pelo rosto e pingava por entre seus dedos. Encarava o visitante com um par de olhos grandes e verdes, daqueles que brilham como pedras preciosas. Uns olhos meio de demônio, lhe pareceram. Ela olhava e esperava.
– Cadê a tua mãe? – perguntou o homem.
– Que que tu quer com ela? – e seus olhos cintilaram de malícia quando grudaram nele.
– Não é da tua conta, pirralha.
Sua paciência para com crianças nunca fora das melhores, e ele não estava em um de seus melhores humores. Na verdade, em geral, era neste estado de ânimo em que ele costumava aparecer por ali. A menina lhe respondeu com um palavrão tão baixo que quase o fez abrir o portão e ir lhe dar um safanão na fuça pelo desrespeito. Gata insolente, vira-latas sem modos, pensou, em uma sequência de xingamentos. Tem os olhos do capeta e a boca suja de um marinheiro. Ele então puxou o ferrolho do portão com cautela, como se para não espantá-la, mas a menina permaneceu parada, a manga na mão, o líquido lambuzando-lhe a cara e pingando dos dedos, fazendo uma poça no chão, e aqueles olhos grudados no homem. Por fim, ele decidiu que não tinha tempo para aquela brincadeira e simplesmente contornou a casa, indo em direção aos fundos.
Tinha assuntos com a mulher havia já uns bons anos. O bairro era cheio de mulheres que prestavam esse tipo de serviço, mas ele mantinha sua fidelidade de freguês bem atendido. E continuou a ser mesmo depois de ter passado três anos fora, no estrangeiro, há muito tempo atrás. Quando retornara à cidade, foi dar com a presença da menina, filha da tal rapariga, que lhe tomou desde a primeira vez um ódio de animal botado pra fora. Mas nem por isso parou de freqüentar a casa. A mulher era de boas curvas, uns peitos cheios e a pele muito escura, porém mais limpa do que era comum naquele lugar. Quando ele chegava, era recebido com um sorriso de dentes tortos e amarelos e ela o chamava de paizinho.
Não deu meia hora, ele afivelava o cinto e botava o chapéu de volta na cabeça. Sua costumeira dose de pinga já estava servida no criado-mudo – uma espécie de cortesia. Ia abrindo o portão quando se lembrou do animalzinho. Ela continuava no seu canto da escada e, se pudesse rosnar, certamente o faria. Naquele instante, uma idéia lhe cruzou a mente, muito veloz, mas não o suficiente para lhe escapar e fugir; ele rapidamente fez as contas de há quanto tempo conhecia a mulher. Bah!, que bobagem! Não fazia sentido. Nos anos que passara fora, lá sabia o que a mulher tinha aprontado por aí? A menina, ainda o mirando, limpou a boca com as costas da mão e depois com o braço inteiro. No entanto, a idéia ficou lhe martelando a cabeça nos segundos que passou parado ao portão observando a menina e tentando encontrar vestígios de si próprio. No fim, por mera consciência, foi até ela que, nesse momento, arregalou os olhos e já ia erguendo os braços para se defender de uma possível surra. O homem deixou cair ao seu lado um pequeno maço de notas baixas.
– Vê se estuda, guria. Sai daqui e vai ser alguém na vida. Te dou um sopapo se te encontrar no portão dando trela pra homem, ouviu bem?
Por via das dúvidas, decidiu não voltar mais. Afinal de contas, havia tantas outras mulheres que prestavam aquele tipo de serviço…
“Bah” e “guria”, quase sua marca registrada.